

A nossa democracia nasceu há muito pouco e, no seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e enferma, não recebeu nada além de bofetadas. Era ainda recém-nascida em 1974, quando tentaram assassiná-la. Três anos depois, ressuscitou.
Depois de terem colocado e retirado uns quantos de cirdculação activa, fizeram e impuzeram-nos uma espécie de governo do que foi o primeiro eleito pelo voto popular na história recente de Portugal, que teve a louca aspiração de querer um país menos injusto. Obrigaram-no a meter os seus ideais numa profunda gaveta, que fecharam a sete chaves, deitando-as depois ao mar para que jamais pudessem ser encontradas.
Para apagar as nódoas de certas participações estrangeiras, os infantes do novo regime levaram cento e sessenta mil páginas de arquivos secretos. Alguns ficaram acorrentados e outros bem livres.
Deram-nos permissão de votar, mas proibiram-nos de participar na vida activa da política nacional; algum burocrata de quarta categoria do FMI ou do Banco Mundial, tinha mais poder que qualquer presidente ou governo português.
Mais que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que algum dos ministros solicitava créditos internacionais, para poder dar pão aos famintos, instrução aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebia respostas ou contadiziam-no, ordenando-lhe: “Faça os trabalhos de casa”. E, como o governo português nunca aprendeu que devia desmantelar os poucos serviços públicos que ainda restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados e sacrificados no passado século no mundo, os professores – éramos os bons alunos – acabavam por reprovar.
Portugal começou a ser visitado por políticos de toda a Europa. Assim que chegavam, a miséria do povo atingia-os frontalmente. E um deles chegou a dizer: “Qual é o problema?” “Este país tem demasiada população. A mulher portuguesa quer e o português pode sempre.” E riu-se…
Os políticos portugueses calaram-se. Numa noite, algum deles consultou os números e comprovou que Portugal é o país mais super-povoado da Península Ibérica, tanto como a Alemanha, nas devidas proporções, já que tinha e tem a mesma quantidade de habitantes por quilómetro quadrado. Na sua passagem por Portugal, alguns estrangeiros de vulto foram atingidos pela miséria, ficando também deslumbrados pela capacidade de expressar a beleza dos fadistas populares, e chegou á conclusão de que o nosso país está super-povoado… de artistas.
Na realidade, o alibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro. Alguns estrangeiros consideram os portugueses incapazes de singrar na vida,, bons apenas para trabalhar duramente como imigrantes nos seus países.
Portugal fora a pérola da coroa europeia: navegadores, colonizadores, vendedores de escravos, que espalharam pelo mundo, porque se torna impensável que Deus tenha dado uma alma, sobretudo boa, a um corpo inteiramente negro, mesmo se colocou um chicote na mão do feitor.
A história de assédio contra os portugueses, que nos nossos dias tem dimenssões de tragédia, é também uma história do racismo e da xenofobia ocidental.

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