Por mais discursos oficiais que nos caiam em cima, o fim de ano não é mais que uma convenção astronómica. Trata-se simplesmente de que a Terra se encontra, todos os anos e em relação ao sol, no mesmo lugar no qual se encontrava no ano passado. Ou seja, que a nossa sombra tem a mesma longitude sobre o solo, as árvores mantêm as poucas folhas que lhes restam, a cerveja continua a marcar a fronteira entre o líquido e a espuma e o fumo que sai pelas chaminés perfuma o ar com a mesma frgância que nos anos anteriores.
Fica, isso sim, o factor humano. Porque os anos são a medida do tempo que mais se adapta ao nosso crescimento. Os anos, os preços dos transportes e o preço das coisas e as esperanças não cumpridas.
Hoje, em vigília e novas agendas, é um bom momento para fazer uma lista de bons propósitos, sabendo que no ano novo esses bons propósitos serão tão constantes como a longitude da sombra, o sabor da cerveja ou o fumo que cega os olhos das pessoas de Inverno.
Gostaria que os ecrãs da Internet fossem realmente um invernador de pequenas sabedorias em vez de ser o jardim de infância daqueles que só sabem insultar desde o anonimato. Gostaria de deixar de entender a política como o sucedâneo de todas as proibições e não como a arte de impulsionar todas as ideias realmente construtivas.
Assinaria agora mesmo para que as pessoas voltassem a ler antes de tergiversar o que, na realidade, nunca chegaram a ler. Sentir-me-ia muito mais seguro num mundo onde a verdade contrastada valesse mais que o simples rumor.
Às vezes viveria tranquilo, deixando que os sentimentos fossem mais respeitáveis que os princípios. Tranquilizar-me-ia imaginar que os movimentos da alma humana levassem á compreensão, antes que a moral social os levassem à Inquisição.
Conformar-me-ia com sentir, durante dez minutos por dia, a vibrante sensação das plantas, esses seres que só têm vida mas que não se metem na vida dos demais.
Investigaria as últimas razões do cansaço, porque isso significaria conhecer os motivos do trabalho e a utilidade do esforço. Buscaria a beleza no fundo das coisas abjectas e faria o possível para extrair da pincelada do génio a harmonia do silêncio entre o estrépito. Quisera não querer nada e, em troca, continuar a querer.
Gostaria de comprovar se é possível viver connosco próprios, se podemos chegar, caminhando… se podemos ser mais sábios sem informação. Se podemos e devemos aceitar sem necessidade de espelhos.
Recuperaria as emoções que algum dia ficaram escritas e pegar-lhes-ia para voar de novo sobre outros mundos, outras pessoas e outras peles. Faria o possível para dizer que não quando sinto que não. Retrocederia nos calendários até dar com o momento exacto em que comecei a errar. Faria um museu dos ódios e um viveiro dos entusiasmos, lugares justos para não esquecer as afrontas e para partilhar as alegrias.
Sentar-me-ia no interior dum templo à espera que Deus me dissesse alguma coisa…









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