terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Caro PS




Daqueles doces dias de primaveras intermináveis, como duas crianças entre os muros dum caminho, surgidos nas noites e vivendo perigosamente quando a ti me entregava não importando o lugar… Ah dias aqueles em que desenhava a tua mão fechada, que segurava a força necessária para a construção dum mundo melhor à nossa volta. Ah, tempo aquele, no qual todos enfrentávamos juntos as adversidades, chegando sempre ao fim como vencedores. Tempo em que ao jantar fazíamos encontro dos nossos ideais, como almas gémeas, sob lâmpadas que mostravam luzes aos que te seguiam, procurando entrelaçar as nossas vidas nos nossos dias; momentos de lembranças eternas… Ah, dias aqueles que contigo percorri universos inexplicáveis sem temer a nada, sempre em busca de momentos novos, de inspiração para as nossas vidas, momentos em que a história se fez, como a semente lançada ao relento que encontra o seio da terra e germina, tornando-se árvore frondosa e impossível de derrubar, oferecendo às gentes incrédulas a sombra necessária de aconchego e esperança.
Belos tempos aqueles em que fazíamos dos nossos actos exemplo aos corações que pulavam de emoção a cada encontro novo… magia aquela que a cada noite oferecia mais tempo para pensar.
Afinal, agora, em solidão, lembro-me que nalgum lugar do passado te perdi ou me perdeste. Se controlasse o tempo, vestir-me-ia de lua solitária e postava-me na tua frente, no teu mundo novo, para poder, da tua silhueta, que é quase o que te resta, fazer a minha visão mágica dum futuro perdido…
Lembrar-te-ás que te falei de duas crianças entre os muros dum caminho, que viviam perigosamente. Pois é. Mas hoje, onde vais tu encontrá-las de novo? Consegues? Terei sido eu a fugir desse caminho? Não, meu amigo. Estou ainda nele e dele não saio. Nunca abandonarei a minha rota e segui-la-ei até que a morte me bata á porta. Seguirei os passos que, naqueles doces dias de primavera interminável a ti me entregava não importando o lugar.
Hoje, meu amigo, escrevo-te com a esperança estampada no coração, porque já não és aquela criança de quem fui amigo e ainda sou. Embora, como cresceste, preferiste esquecer-te. Mas hoje, como dizia, preferes-te com os grandes. Tu também és grande, mas queres ser maior que tu próprio. E eu? Quem sou? Um simples amigo que preferiste, como a tantos outros, esquecer. Rebusca na tua memória e podes ver que nunca te pedi nada para mim. Isso não seria próprio dum amigo; mas, se rebuscares bem, talvez possas recordar-te daqueles tempos de Paris, por exemplo. Nunca pedi nada dando sempre o mais que pude. Bons tempos, que passaram e jamais voltarão. Como eu? Oh, muitos que também nada te pediram, dando tanto.
Olha! Já agora, sê feliz. E para ganhares um belo Ano Novo, sobretudo da cor da paz social, novo nas sementes do vir a ser, novo no coração das coisas menos percebidas, novo, espontâneo, não precisas de expedir nenhuma mensagem nem fazer uma lista de boas intenções, para depois a arquivares no fundo duma gaveta. Como não precisas de chorar arrependido nem por decreto de esperança, dizendo que a partir de Janeiro as coisas mudam. Só espero que tudo seja claridade e recompensa e justiça entre os homens e haja liberdade com cheiro e gosto ao pão matinal, direitos respeitados, começando pelo augusto de viver. Para ganhares um Novo Ano, meu caro, tens de o merecer, porque é dentro de ti que ele, Ano Novo, dormita e espera desde sempre.

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