Apareceu de novo na imprensa mundial o senhor Moammar Kadafi. Acaso terá inveja a Berlusconi?
Entre ambos existem apreciáveis diferenças, claro, apesar de partilharem os mesmos gostos por determinadas raparigas.
O que acontece é que Kadafi foi amistosamente convidado para um cenário político europeu, como se essa personagem da Líbia não tivesse sido o autor dum golpe de estado em 1969 e não se tivesse erigido, sucessivamente, em comandante chefe das forças Armadas líbias, primeiro-ministro, ministro da Defesa e presidente do Conselho Revolucionário. Ou seja, tem uma trajectória ditatorial de quarenta anos.
Esse senhor é saudado pelos políticos democráticos europeus. Não é caso único; há outros governantes em África, absolutamente inapresentáveis, com os quais se decidiu ter e manter relações normais de cordialidade. Direitas e esquerdas. Antes e agora.
Montaram-se muitas instituições na europa que quiseram justificar-se por uma acção positiva a favor de países pobres, mas passam os anos – muitos anos – e muitos deses países não só continuam a ser pobres, senão que os que os que ocupam o poder são cada vez mais ricos.
Se na própria Europa há uma notabilísima corrrupção – visível ou invisível – como pode pensar-se em purificar um país longínquo?
Atenção: longínquo desde o ponto de vista físico, mas muito irmanado por interesses repartidos.
Escandalizamo-nos com Berlusconi, que é um descarado que abusa do poder. As suas disposições autoritárias são espectaculares. É lamentável que alguns o vejam como um indivíduo pitoresco e não como um perigoso infractor do que antanho se chamava moralidade.
Todos estamos ao corrente dos casos de corrupção e, certamente que pensamos que existe uma corrupção oculta.
Como chegamos a esta situação? Como se desenvolveu a desconfiança na moralidade económica e política? Como é possível que se façam obras faraónicas em países nos quais o povo pasa fome?
Disse moralidade e não ética ou civismo, que são as palavras que hoje se utilizam. Parecem mais modernas, porque são mais brandas. Talvez tenhamos que recuperar a rotundidade de imoral, a única palavra que, sem dissimular, se aplica aos “costumes, actos e pensamentos humanos que se caracterizam por ser moralmente maus.”
E Montaigne acaba por ter razão. «Se não nos indignamos quando nos apresentam alguém com um corpo contrafeito – escreveu – porque deveríamos irritar-nos quando vemos uma alma deformada?»







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