quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O ruído do carro de bois





Certa manhã, fui com meu pai dar um passeio por um pinhal e, numa clareira, após um pequeno silêncio, ele perguntou-me:


«Além das aves, estás a ouvir mais alguma coisa?»

Apurei os ouvidos durante alguns segundos e respondi: “Estou a ouvir o barulho dum carro de bois.”

«É isso mesmo – disse meu pai – e trata-se dum carro vazio…»

Então, perguntei-lhe: “Como podes saber que o carro está vazio se ainda o não vemos?”

«Ora – respondeu ele – é muito fácil saber que o carro está vazio; por causa do barulho. Quanto mais vazio, maior é o barulho que faz.»




Tornei-me adulto e, até hoje, quando vejo uma pessoa a falar de mais, gritando (no sentido de intimidar), tratando o próximo com grosseria inoportuna, prepotência, interrompendo a conversa de toda a gente, querendo demonstrar que é dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de ouvir meu pai dizer: «Quanto mais vazio está o carro, mais barulho faz!»
Quantos carros de bois conhecem?


Lembro-me também dum artigo, escrito por meu pai, publicado num jornal em 1957. Dizia o seguinte:




«Os portugueses bebem de mais e gastam sem critério. Conduzem demasiado rápido, ficam acordados até muito tarde, acordam cansados; lêm muito pouco e vivem na ignorância.


Alguns, multiplicam os seus bens, mas reduzem ao seus valores. Falam demasiado baixo, odeiam frequentemente, aprendem a sobreviver, mas não a viver, somam anos à vida e não vida aos anos.

Ficam muitas coisas grandes, mas muito poucas melhores. Limpam o ar, mas poluem a alma; dominou-se o átomo, mas não os preconceitos; escreve-se mais, mas aprende-se menos; planeia-se mais, mas realiza-se menos.




Aprende-se mais informaçao, mas comunica-se cada vez menos.


Vive-se uma era de digestão lenta; do homem grande, com carácter pequeno, lucros acentuados, mas relações vazias. É a era dos dois empregos, várias separações, casas chiques e lares despedaçados.

É a era do automóvel e dos cérebros ocos. Um momento de muita coisa na montra, mas muito pouca na despensa. Uma era que leva esta carta até si, e uma era que permite dividir uma reflexão simples.




Não passamos o tempo necessário com as pessoas que amámos, pois não estão aqui para sempre. Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm do interior. Por isso, saibamos valorizar a família e as pessoas que estão do nosso lado, aconteça o que acontecer.»


Esta pequena carta valeu a meu pai uma estadia mais nos calabouços da polícia de estado, por ser considerada subversiva e o jornal que a publicou foi advertido




Realmente, os tempos não estão muito mudados, apesar de tudo o que digam.

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