segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Frívolos dirigentes



Hoje leva-se muito a sério a palavra presidente, tal como a palavra doutor e, por vezes acontece o binómio doutor/presidente. Todos são presidentes de alguma coisa, desde um conselho de assessoria até, com a devida vénia, às escadas do vizinho; o curioso é que, com tal tratamento, desaperece o nome e, para lhe dar uma incompreensivel importância, quando se fala de fulano se diz simplesmente “o presidente”, um título tão decorativo como ribombante, como se a presidência fosse uma garantia de eficácia, apesar de se ter demonstrado ultimamente que o nome não faz a coisa.



Há outra palavra que imprime carácter e que também está a passar por uma experiência de notável inflação. Trata-se de dirigente. As escolas empresariais insistem muito na necessidade de que haja dirigentes.



Os políticos humanistas também falam de dirigentes. E os sindicalistas, como os desportistas e até os catequistas. Um dirigente é uma personalidade que apresenta objectivos e que embarca nesses objectivos um mínimo mais ou menos grande de pessoas.


Os dirigentes têm sempre pessoas dirigidas, mas admitir essa diferença não é de bom tom. O dirigente desenha tácticas e métodos; pensa-se que possui uma nítida habilidade para repartir o prémio e o castigo; frequentemente, os dirigentes reunem-se e falam das suas coisas para se assegurarem de que vão pelo bom caminho.


Os dirigidos, em troca, conformam-se com limitar os seus anseios críticos, porque mais vale ser um dirigido com trabalho que um independente no desemprego. Nesta visão estrictamente economicista da figura do dirigente, perdem-se muitas matizes.



Um dirigente não deveria controlar unicamente a sua função produtiva. Espera-se dum dirigente que também seja capaz de comunicar à sociedade valores de crescimento pessoal e colectivo. O dirigente não é um sacerdote, mas é influente. Por isso pode-se afirmar que, hoje em dia, ser dirigente é ser muito pouco.



Assim, temos diversos presidentes, até do presidentes patronais. Estes dirigentes, que consideram que todos os males da economia se devem ao legítimo desejo dos sindicatos, de manter os postos de trabalho, não só descontam as quotas dos seus trabalhadores para a Segurança Social, como ainda não metem esse dinheiro – que não é seu – nos cofres públicos.



Dirigentes assim, deveriam encontrar-se hoje na cadeia ou gozando duma incompreensível liberdade, esperemos que vigiada. Depois surgem os órgãos de comunicação com as suas notícias sobre “casos” no futebol, porque o governo pretende que os jogadores residentes deixem o generoso regime fiscal que lhes permite receber meio milhão de euros, ou mais. Num momento como o actual, com uma tremenda taxa de desemprego, crescente, enquanto se manifestam milhares de trabalhadores que vêm as empresas fechar, talvez o melhor fosse convocar uma greve patronal para aforrar impostos às suas estrelas, o que não é digno do bom dirigente. Como tão-pouco era próprio dum bom dirigente fazer vista grossa à violência nos estádios e nas empresas.



Uma coisa são os valores, outra as picardias. A gente sente-se seduzida pelo orgulho de pertencer a uma sociedade sensata. Mas incomoda-se quando um dirigente tenta fazer-lhe crer que os seus interesses financeiros são um sinal de igualdade num mundo demasiado desigual.


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