Como diria Pablo Neruda, “também eu confesso que bebi, mas não está o organismo para o maltratar nem a noite para a prolongar.” As horas felizes às vezes chegam na solariedade duma manhã, quando a consciência é o sumo da experiência e os pequenos gestos acabam por ser uma exaltação á vida. Não penso defender a canga selvagem, porque viemos a este mundo para a domesticar. Tão-pouco negarei que o tabaco é nocivo, mas defenderei o direito dos fumadores a serem tratados como pessoas adultas.
Não parece que seja o caso dos nossos parlamentares ou autarcas, empenhados uma vez mais em proibir em vez de prevenir, em multar em vez de solucionar. E pergunto-me se seria necessária uma disposição da saúde pública, com direito à categoria de lei, ou se bastaria uma norma inferior. Por acaso a lei vai acabar com a irreverência juvenil?
Os que podem pagar-se uns copos não vão sentir-se afectados por essa lei. Os comerciantes, pelo cotrário, deverão aumentar a sua actividade.
Em Portugal, ter um estabelecimento público está tornar-se difícil. Todos os perigos do mundo, pelos vistos, são cozinhados nas discotecas e bares. O tabaco, a política linguística, a iluminação excessiva, a ocupaçao da via pública, os desmandos dos paroquianos.
Tudo depende do senhor que está por trás do balcão. Um proprietário honesto e bom contribuinte que doravante já não poderá pronunciar aquela antiga frase hospitaleira, que dizia: «a casa convida para esta rodada.»
Com as curiosas unanimidades está a converter-se o português numa personagem suspeita. E como suspeito, cairá sobre a sua condição de pervertedor de maiores todo o peso da lei em forma de multas.
Uma nova proibição acaba de ser aprovada, dizem que para o nosso bem. E pergunto-me se a política é isto. Porque, quando se apresentam ás eleições, os votantes pensaram que lhe estavam a oferecer serviços. Muitos cidadãos acreditaram que vinham administrar melhor os recursos públicos. Muitos estavam convencidos de que a actividade legislativa repondia aos critérios de igualdade e duma política participativa e social. Mas, na hora da verdade, a participação confunde-se com a nova submissão. Não foram eleitos para isto. Nem para levarem as nossas cidades a uma asfixia de internado, qenquanto os temas importantes se desenlaçam em escãndalos e malversações.
Ah, já agora, queiram permitir que o José Saramago continue um cidadão português.
Não é estranho que o governo trate os seus cidadãos como meros súbditos e estes se refugiem na pura desafeição. De que serve encher-se a boca de liberdade, quando a coação das pequenas liberdades quotidianas é o grande pretexto para encobrir uma política errática, sobretudo no que toca ao social, débil com os fortes e forte com os débeis?
Já alguém se perguntou porque razão caiu mais que 14 lugares a liberdade de imprensa nacional?






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