Haverá realmente bairros sociais na cidade do Porto? As opiniões dividem-se, opinando alguns que sim, como a autarquia, e outros que não, como por exemplo eu. Não pretendendo dizer qualquer verdade digna de Mr. De La Palisse, atrevo-me a dizer apenas o seguinte:
Vim para a cidade do Porto aos dez anos de idade, nunca tendo visto uma “ilha”.
Quando cá cheguei, estranhei vê-los, aqueles aglomerados de “casas” de habitação na horizontal, casitas baixas e pobres, pequenas, onde se vivia numa certa promiscuidade, havendo um ou dois quartos de banho para satisfação das necessidades fisiológicas, que serviam toda a comunidade daquele “bairro, a que popularmente se chamava “ilha”.
Havia-as em praticamente todas as ruas da cidade e, mesmo correndo o risco de me tornar fastidioso, abrigavam pessoas educadas e de bons princípios morais, as menos educadas e crianças, muitas crianças que lhes davam um ar alegre e jovial dentro daquele portão de ferro que disfarçava a existência daquele correr de pequenas habitações.
Algumas dessas ilhas estavam situadas em locais que, com o tempo, se foram tornando alvo da cobiça de certos especuladores, que as compravam desde que as pessoas saíssem de lá, para poderem erguer mais uma colónia do seu império económico/financeiro.
Para que tal pudesse ser feito na máxima legalidade, tudo se tratava dentro das portas da Câmara que, face à lei, as expropriava aos legítimos proprietários – com o seu conhecimento prévio e seu consentimento – devendo, todavia, alojar as pessoas fosse onde fosse, já que não podiam ser simplesmente postas na rua.
Ali na Rua de Santos Pousada, em frente à Rua do Moreira e até à Avenida Fernão de Magalhães, existia um terreno que era conhecido por “Monte das Feiticeiras” – e de modo algum pretendo competir com o Sr. Germano Silva, mas talvez inspirá-lo para que nos fale dele – que deu origem a um dos primeiros dos pomposamente chamados bairros sociais da cidade. Baptizado como Bairro Fernão de Magalhães.
Depois, e consoante os interesses dos tais investidores, mas afirmando tratar-se duma política camarária de requalificação da cidade e erradicação das ilhas, esses chamados bairros sociais foram proliferando de tal modo que se tornaram, sobretudo após a Revolução de Abril 1974, em verdadeiras chagas sociais, devido à mistura – sem qualquer prática de qualquer política de integração, de pelo menos três etnias muito diferentes: a cigana, os luso-africanos e os nacionais, como diziam e dizem ainda.
Já existia o bairro S. João de Deus, exemplo vivo que foi do vandalismo e do tráfico de toda a espécie, indo ao ponto de o rebaptizarem como “O Tarrafal”.
Os executivos camarários foram seguindo as políticas do quem dá mais é mais amigo, em detrimento da vida social nesses e noutros bairros, verdadeiros guetos, que foram proliferando pela cidade e por todo o Grande Porto ou mesmo país. As verdadeiras ilhas ao alto, ou seja renovadas, agora na vertical. A única mudança foi passarem da horizontal para a vertical.
Quando da construção no novo Estádio do Futebol Clube do Porto, e da reconstrução da sua envolvência, logo se verificou o ressurgimento de novos interesses e, o executivo da Câmara não hesitou um segundo: “Desmantele-se o S. João de Deus”, mude-se a Sociedade Protectora dos Animais, que a meu ver não devia ter aceite o antigo matadouro, uma vez que o constante tráfego dos comboios, dia e noite, impede o descanso dos animais lá alojados. Mas isso é outro assunto.
Era necessário, efectivamente, desmantelar o S. João de Deus. Creiam que sei do que falo… No entanto, ao fazê-lo e realojando os moradores pelos outros bairros, o “cancro” ali existente, foi transferido aos bocados para os outros bairros e, como verdadeiras metásteses, originaram novos focos cancerígenos onde o terreno estava são. O cancro é invasivo e logo se notou por toda a parte onde se afirma haver um bairro social.
Curiosamente, no S. João de Deus e sua Rua 1, onde as casas são individuais e com o máximo de rés-do-chão e primeiro andar, não havia problemas de maior, já que eles sempre existirão enquanto houver seres humanos.
Pessoalmente afirmo: essa Rua 1 era o verdadeiro bairro social do S. João de Deus. Ao blocos, essas ilhas na vertical, nunca podem ser considerados bairros sociais, mas verdadeiros guetos onde tudo e todos se confundem na amálgama da promiscuidade e do tráfico de toda a espécie.
Compreendi o afastamento do Dr. Paulo Morais da Câmara do Porto, como compreendo o dilema hoje vivido com os problemas levantados pelas incursões ao espaço ocupado pelo Bairro do Aleixo e, talvez amanhã ao de Fernão de Magalhães, do Falcão ou mesmo do Lagarteiro e outros que estejam bem situados para um qualquer investimento especulativo dalgum capitalista.
Só quero lembrar que nunca houve uma política de integração quer da etnia cigana ou dos luso-africanos, hoje tão falados pela negativa
E deixo a pergunta: “Alguém daria emprego a um cigano?”











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