Quem visita Coimbra e atravessaa ponte sobre o Mondego, poderá apreciar aquela admirável obra, podendo ficar encantado e também sensibilizado com ela. Maeterlinck chamou-lhe “um país saído dum conto de fadas.”
Realmente, assim parece, pois ali, num recinto de algumas centenas de metros quadrados, encontra-se, em miniatura, o Portugal inteiro com a história que quem o mandou construir pretendia que adorassemos, com aqueles seus costumes, estilos arquitectónicos, artes, religião, ofícios e indústrias rurais.
Não se pretendeu uma obra pedagógica, mandada construir durante a segunda metade dos anos trinta, que pretenderam repleta de poesia e sensibilidade, entregue ao arquitecto Cassiano Branco, que hoje tem um significado bem diferente do de então.
Ali se encontram, nas dimensões apropriadas a quem se destinava, e hoje ironicamente se destina, Portugal inteiro, do Minho ao Algarve, com seus costumes e monumentos, solares, minas, rios, montes e vales… não esquecendo o Portugal insular e colonial, ou seja, todo o império português, de que muitos sentem ainda saudades. No entanto, impossível se torna fazê-lo reviver.
O que hoje se pode verificar daquele interessante trabalho (para a época) é uma triste realidade: «Portugal dos Pequeninos», com a devida vénia, é uma recordação e uma constatação para quem agora viaja pelo país actual – Portugal dos Grandes – quase só povoado no litoral e com casas, terras e solares abandonados, castelos arruinados, terras que já mais nada senão ervas, silvas e mato produzem; aldeias onde vivem cinco ou seis pessoas de alta idade, longe de tudo e de todos.
Um pormenor o Portugal dos Pequeninos é o caminho lageado da entrada, onde se levanta o edifício maior de todas as construções miniaturais, que é o pavilhão de assistência médica, creche, escola, sala de jantar das crianças, lavabos, tudo de acordo com os métodos pedagógicos, condições higiénicas e clínicas, também da época.
Rotas das naus, conquistas e novas terras do império estão, além, representadas no enorme globo terráqueo, onde as crianças aprendiam a conhece-las e a admirar a obra de Gama, dos Albuquerques e dos cabrais, mas que desconheciam e continuaram a desconhecer o seu país real.
Há muitas diferenças entre aquele Portugal e o Portugal de hoje. Hoje, as novas tecnologias tomaram conta de todos, grandes ou pequenos, do Minho ao Algarve, passando pelos Açores e Madeira, porque tudo o resto já lá vai, vivendo-se na era dos PALOP.
Um interior desertificado, um ruralismo morto, uma escola onde os professores não têm autoridade e são humilhados, um povo em luta contra o desemprego e uns ideiais moribundos que dão lugar a, como disse Eça de Queiroz, em 1867 no «Distrito de Évora»:
«ORDINARIAMENTE todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, sõ nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, uma concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o ESTADISTA. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e ciorrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?»
Vivemos, efectivamente em dois Portugal, nos quais o dos pequeninos tem vindo a desparecer pelo sumideiro da desgraça.







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