quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Dádivas e mimos



Interessa-me muito o universo semântico da prenda. Segndo o diccionário, trata-se duma dádiva que se faz voluntariamente, e uma dádiva é uma coisa que se faz de forma gratuita, uma festa… um mimo.

E um mimo é uma amostra de afecto ou consideração expressiva e carinhosa. Quer dizer, este universo desliza pelos parâmetros da mais pura desafeição. O diccionário, às vezes é assim, tem tanto de ingénuo como de simpárico.

O certo é que quando oferecemos quelquer coisa, consideramos que quem a recebe se renda à exibição do nosso carinho. Com que motivo? O principal. Para que nos apreciem mais.
Desejamos oferecer uma alegria e isso é muito bonito. Mas, dar de maneira gratuita não implica não se gastar mais nada com o oferecido, pelo contrário, gastamos para que percebam que não nos importa o dinheiro, mas a sua felicidade. O facto de se conseguir que gostem mais de nós – objectivo primeiro da prenda – é adulação?

De maneira nenhuma. Se nos apreciam mais e em nós votam, certamente que também se recordarão de nós no momento de nos “agasalharmos”, quando nos toque a vez, de maneira gratuita e carinhosa.

Quer dizer que, participamos todos na roda das prendas. Os pais, as mães, os filhos, as mulheres e os homens, aquele a quem se deve um favor ou de quem queremos recebê-lo: todos andamos como hamsteres dentro da roda. O mundo açucarado e rosa, pois na beatitude do diccionário e não na egoísta realidade do que dá para mais tarde receber.

Um mundo maravilhoso em que nos dedicamos a oferecer e a organizar festas e passeios com o único benefício da gratuitidade do afecto. Um mundo em que uns trajes não pagam um contrato milionário – passe a ordinarice. Um mundo no qual os do contrato milionário se levantam de suas camas com a ideia fixa de oferecer a felicidade na forma de bolsas, diamantes.., sem pensar que os destinatários das suas dádivas serão mais amáveis com eles por semelhantes miudezas. Sinceramente, é tudo muito bonito, uma beleza rara e comovente.

Se me fosse permitido recomendaria a leitura de D. Quixote a alguns, particularmente na Madeira: “Se por acaso dobrares a vara da justiça, que não seja com o peso da dádiva, mas com o da misericórdia.”, como a recomendaria a diversos autarcas e demais políticos.

Há os que, na sua leitura cervantina não se deixam corromper por esse peso desinteressado, senão que apostavam pela misericórdia de dar a quem necessita, de se colocar no lugar do próximo. Não pensaram, alguns, que com uma oferta se comprava um presidente. E não pensaram os outros, que seriam premiados pelo presidente por falta duma prenda. Uns e outros dedicam-se ao nobre desporto da amizade, que, no melhor dos mundos possível, como pensava o Cândido de Voltaire, não tem preço.

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