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Culto praticado em espaço sem licença leva moradores a pedir medidas
Gritos, música, cânticos. Há um ano que moradores da Rua do Parque da República, em Vila Nova de Gaia, se queixam da falta de sossego desde que uma seita religiosa ocupou, ilegalmente, um armazém, e faz "milagres" e orações à noite.
"São gritos, são desmaios, é uma histeria. Mesmo com as portas e janelas fechadas, o barulho é tanto que não se ouve nada dentro das casas". A afirmação é de Maria da Conceição Pinto, uma das residentes na rua que tem vindo, insistentemente, a alertar as autoridades para a falta de sossego na vizinhança.
A seita religiosa, denominada"Igreja Evangélica - Assembleia de Deus e Novas da Paz", anuncia os horários das orações na porta: diariamente, a partir das 20horas, aos domingos, a partir das 17 horas.
"Começou por ser às quintas-feiras e aos domingos, mas agora é todos os dias à noite e ao domingo todo o dia", conta Fátima Pinto, outra contestatária. Para além das orações "recheadas de dramatismo" e dos "milagres" à mistura, os moradores queixam-se de outro barulho: o dos tambores. "Nós até nos assustamos. Para além dos gritos, são os bombos a tocar, eles a cantar...É pior do que uma banda", desabafam, em uníssono, os moradores.
Armindo Correia, de 70 anos, vive ainda mais de perto o "inferno". Mora por cima do armazém, antiga fábrica de confecções, e há um ano para cá, que tem sido obrigado a mudar os seus hábitos. "Tive que me privar da minha filha vir cá almoçar aos domingos com as minhas netas, porque as crianças ficam assustadas e não conseguem fazer a sesta", conta o inquilino. "A partir das 14.30 horas, começam a tocar os tambores. Fecho todas as janelas, mas mesmo assim, não há sossego", diz.
Também Maria da Conceição apresenta os seus motivos. "O meu marido é doente oncológico, chega a casa, quer descansar e não pode". A irmã, Fátima Pinto, recorda o episódio vivido há alguns meses, quando a mãe foi vítima de um Acidente Vascular Cerevral (AVC). "Fui pedir-lhes para fazerem menos barulho e eles ainda queriam vir cá tratá-la". O pedido foi acatado por uns tempos, "mas depois esqueceram-se".
O barulho prolonga-se até depois das 22 horas, pelo que a Polícia já foi chamada várias vezes ao local. "Dizem-nos que temos que recorrer à Gaiurb", refere Armindo Correia. "Fui e apresentei queixa. Eles vieram cá, disseram que tinha razão, mas a verdade é que nunca mais cá voltaram". Já passou meio ano, e, entretanto, houve novas visitas da Polícia. "Disseram-nos que a única solução é fazer um abaixo-assinado e mandar para a Câmara".
Alexandrina Brandão, que vive ao lado do armazém, fala em falta de informação. "Não sabemos a quem nos dirigir. As autoridades deviam ouvir-nos e o senhoria devia ter-nos consultado", critica. "Não há uma lei do ruído para cumprir?", interroga Aldina Silva.
Maria Eduarda Filipe mora em frente ao "lugar de culto", tem 80 anos e as mesmas queixas. "Nem com tudo fechado se consegue ouvir o televisor", reclama, acrescentando que no seu prédio, "os inquilinos são padeiros e levantam-se às quatro da manhã".
Recusando estarem a vetar o direito ao culto religioso, os queixosos argumentam: "Cada um é livre de ter a sua religião desde que não incomodem os outros".
00h30m
VERÓNICA PEREIRA (Jornal de Notícias 27/9/2009)


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