
Equivocam-se os que dizem que a política não se desfará. É toda a sociedade portuguesa que se desfaz se não houver uma rápida mobilização dos cidadãos honrados a fim de impôr o mínimo de sensatez aos actos públicos. Não podemos desculpar-nos com a cise mundial do sistema democrático. Se a cada dia basta o seu cuidado, a cada povo cabe a sua responsabilidade.
Quando se revelou a queda de Wall Street, em consequência da roubalheira continuada pelos que se lembraram que a globalização neoliberal da economia fora engendrada, em Washington e Londres para garantir a exploração dos recursos dos países periféricos. Durante algum tempo, em Portugal, o governo hesitou em acatar ordenes neoliberais, codificadas pelos economistas num manual a que se deu o nome de “Consenso de Washington”.
Mas, como os “sábios” costumam ouvir outros “sábios”, os génios nacionais da economia, senhores de cátedras em Coimbra, Lisboa e Porto, empenharam-se em fazer “os trabalhos de casa”. Agiram sem ouvir ninguém, como se não houvesse vida inteligente no país.
O Consenso de Washington complicou-se no famoso Acordo Multilateral de Investimentos, que se frustrou graças ao bom senso dos cidadãos franceses e canadianos, que o denunciaram. Frustrou-se de modo geral, mas chegou a ser cumprido, nas suas cláuslas isoladas, de forma unilateral, pelos governos dos países do hemisfério sul.
A forte reacção de muitos sectores da vida nacional conseguiu impedir que tudo fosse entregue: salvou-se o essencial de algumas empresas públicas, hoje declaradas quase na falência para, na próxima legislatura serem privatizadas.
Enquanto isso ocorria, a maioria dos homens de bem cuidava, em primeiro lugar, do seu próprio quintal, da sua própria economia, do seu próprio emprego. Se houvesse tempo, dedicavam-no, como obrigação, à família e – mais como hábito que convicção – à sua fé, frequentando os templos.
Há uma frase de Disraeli, o poderoso e controverso primeiro-ministro britânico, que deveria servir de meditação: «O filho de judeus convertidos ao cristianismo atribuiu a grandeza da Inglaterra ao facto de que, naquele país, os homens de bem tê (ou tinham naquele tempo) tanta ousadia quanto os canalhas.»
Falta essa ousadia à maioria dos homens de bem em Portugal, além de informação mais honesta. Muitos dos que, hipocritamente berram na AR e no governo, pelas televisões e rádios, as suas virtudes, não podem ser considerados homens honrados: basta examinar a sua vida conhecida.
Devemos ver a ética como um acto de inteligência, de sabedoria. O apodrecimento da política é, sobretudo, resultado de essencial idiotice. É sempre bom lembrar que idiota em grego significa egoísta.
O egoísmo – antítese de solidariedade, da ética – conduz ao abandono de todos os cuidados no comportamento dalguns homens públicos. O Parlamento que temos é resultado do balançar de ombros dos cidadãos, que vão às urnas todos os quatro anos, mas só se preocupam com a eelição do chefe do poder executivo. Não aprenderam, ainda, que, numa República, não há mais soberanos que o povo, que o Parlamento deve representar.

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