quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A agenda cinzenta





O carteiro entregou um telegrama. Ernesto nõ agradeceu. Enquanto o abria, uma ruga sulcou-lhe a testa. Uma expressão mais de surpresa que de dor, tomou-lhe conta do rosto. Palavras breves e incisivas: “aleceu o pai. Enterro às 6. Mãe”.
O Ernesto continuou parado, olhando o vazio. Nenhuma lágrima, nenhum aperto no coração. Nada! Era como se tivesse morrido um estranho Porque não sentia nada pela morte do velho pai?
Com um turbilhão de pensamentos a confundi-lo. Avisou a esposa, apanhou a camioneta e foi, vencendo os silenciosos quilómetros de estrada enquanto a sua cabeça rodopiava.
No íntimo, não queria ir ao funeral e, se ia, era apenas para que sua mãe não ficasse mais amargurada. Ela sabia que filho e pai não se davam bem.
Um dia, tudo chegou ao fim entre eles, após uma discussão. Ernesto fez as malas e partiu prometendo não mais voltar àquela casa. Um emprego razoável, casamento, telefonemas à mãe pelo natal e pela Páscoa… Tinha-se desligado da família, não pensava no pai e a última coisa que desejava era ser parecido com ele.
No velório, poucas pessoas. A mãe, pálida, gelada, chorava. Quando reviu o filho, as lágrimas correram silenciosas. Foi um abraço desesperado e silencioso. Depois, viu o corpo sereno do pai envolto num lençol branco bordado. Não verteu uma lágrima. Era como estar diante dum desconhecido, um estranho, um…
Após o funeral, ficou em casa com a mãe até às dez. Beijou-a e prometeu que voltaria trazendo os filhos e a esposa para a conhecerem. Agora poderia voltar áquela casa, porque o pai não estava lá mais para lhe dar conselhos ácidos nem para o criticar. Foi então que a mãe lhe colocou na mão uma agenda cinzenta, diendo-lhe que lesse o que lá estava escrito.
Foi num gesto mecânico que sentado na camioneta, de regresso, meteu a mão no bolso e a sentiu. Abriu-a curioso, notando que tinha as folhas amareladas.
Logo na primeira, o pai tinha escrito: “Nascei«u o ernesto. Quatro quilos. O meu primeiro filho, um rapagão. Estou orgulhoso de ser om pai daquele que será a minha continuação na Terra.
À medida que a folheava, devorando cada anotação, sentia um aperto no estômago, mistura de dor e perplexidade, pois as imagens do passado surgiam, firmes e atrevidas, como se acabadas de acontecer.
“Hoje, o meu filho foi para a escola. Está um homenzinho. Desejo-lhe um futuro cheio de sabedoria. A vida dele será diferente, porque não pude estudar para ajudar o meu pai. Mas,para o meu filho quero o melhor. Não permitirei que a vida o castigue.” Numa outra folha: “Pedi dinheiro emprestado para comprar uma bicicleta para o ernesto. Merece-a por ser estudioso e esforçado.”
“É duro para um pai castigar um filho. Ele pode odiar-me por isso, mas devo educá-lo para seu próprio bem. Foi assim que aprendi a ser um homem honrado e esta é a única maneira que conheço para o fazer.”
Ernesto fechou os olhos e viu toda a cena quando, por causa duma bebedeira tinha ido para a cadeia e, naquela noite, se o pai não tivesse aparecido para o impedir de ir com os amigos… lembrava-se apenas do carro retorcido e manchado de sangue que tinha batido numa árvore. Parecia ouvir os sinos, o choro de toda a aldeia enquanto quatro caixões seguiam lugubremente para o cemitério.
As folhas sucediam-se comas anotações do pai, que as escrevia de madrugada.
Agora, o ernesto, debaixo daquela fachada de fortaleza ofendida, havia um coração terno e cheio de amor. Na última folha, aquela em que tinha partido de casa: “Meu Deus. Que fiz de errado para meu filho me odiar tanto? Porque sou considerado culpado se nada fiz senão tentar transformá-lo num homem de bem? Não permitas, meu Deus, que esta injustiça me atormente para sempre. Que um dia ele possa compreender e perdoar por eu não ter sabido ser o pai que ele merecia ter.” Depois, nada.
Tinha chegado à cidade onde vivia. Saiu e agradeceu a lufada de ar fresco na cara. Na sua egocêntrica cegueira de adolescente, jamais havia parado para pensar nas verdades mais profundas. Para ele, os pais eram descartáveis e sem valor, como as embalagens que se lançam ao lixo.
Afinal, naqueles dias de pouca reflexão, tudo era juventude, saúde, beleza, música, cor, alegria, despreocupação, vaidade. Não era um semi-deus?
E sentia vontade de mergulhar no silêncio sem precisar de dialogar com os filhos. Não se sentia ele o mais completo pai da terra? Quis gritar, erguer-se e procurar agarrar o velho pai e abraçá-lo e sacudi-lo, mas encontrou apenas o vazio. Porquê não ter percebido antes tudo aquilo? Só, no caminho para casa, limitou-se a falar em surdina: “Se Deus me mandasse escolher, juro que não queria ter tido outro pai que não fosses tu, meu velho. Obrigado por todo o amor e perdoa-me por ter sido tão cego.

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