quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Ética, estética e impunidade do poder

Cada vez percebo menos o que significa ter poder. Certamente deve ser algo do sistema que muda, se transforma e faz tremer o mundo que até agora davamos por descontado. Ou talvez aconteça que tenham alterado o que mais pesa e os factores que determinam que alguém seja considerado poderoso.


Pergunto-me o que dá mais poder hoje: o apelido? O património? Os votos? A fama? A possibilidade de fazer o bem ou a capacidade de fazer o mal?

É difícil encontrar uma resposta clara: é evidente que os apelidos pesam, e mais fazem falta as “quatrocentas famílias”, mas nem sempre os apelidos são associados ao dinheiro e, às vezes, quando alguém quer saber ou fazer uma coisa à custa da outra, acaba por ficar sem nenhuma das duas.



Quanto ao património, ah, o património municipal do Porto. Um rico património, manchado de partes “cariadas, apodrecidas”, que de vez em quando dão sinal de si como se um terramoto tivesse assolado a cidade naquela zona.


Incúria!, dizem uns. Desleixo!, dizem outros. Indiferença!, gritam ainda outros.




É a mais pura das verdades que existe um pouco de tudo isto, e mais alguma coisa. Há centenas d prédios, património da cidade, que estão devolutos há anos, a apodrecer lentamente, de tal modo que se resistem aos tais terramotos invisíveis, serão necessários milhões para os recuperar. Como aquele magnífico prédio onde em tempos esteve instalada a Reclusão Militar do Porto, na Rua de S. Brás, que poderia servir para instalar várias Associações que esperam há anos por umas instalações. Mas não! Aquele prédio, por onde passei ainda na terça-feira, «merece apodrecer para que depois sejam lá gastos mais milhões do erário público portuense e nacional para o recuperar.



A autarquia portuense tem andado há anos numa espécie de doloroso processo de “desconstrução” predial, o que, queira-se ou não, afecta o nome do que actualmente detém o poder, mesmo não sendo, talvez, o mais culpado.


Mas, o exercício da responsabilidade dum cargo público impllica ter que superar muitos condicionamentos, ter que arrastar muitos processos contra proprietários que nada ligam e pôe em risco a vida de pessoas, de seres humanos. E, sobretudo, ter que dar muitas explicações. Além disso, o poder vem das urnas e após ter ganho umas eleições, todo o mundo treme temendo perder as próximas. Daí as inseguranças e os medos que levam encarregar informações inúteis e contratar espias da série B, que são os que acabam por ser descobertos.

Suponho que o poder real é opaco e nos passa mais despercebido porque não quer ruído e tem pouca presença mediática. O silêncio indispensável com os níveis de imunidade que requer. Mas, de vez em quando, como um relâmpago, é publicada uma notícia relacionada com este mundo que nos surpreende.




Em plena campanha pela autarquia da cidade, ruiu aparatosa e perigosamente um prédio na Rua Formosa. Felizmente não matou ou feriu ninguém.


E se tudo fosse ao contrário? Se tivesse morrido alguém? Eis aqui o que significa ter poder; deve ser aproximadamente isto… meu caro e velho Porto.

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