sábado, 3 de outubro de 2009

O último dia

Aquele era o seu último dia de vida, embora não o soubesse.


Naquela manhã sentiu vontade de dormir mais um bocado. Estava cansado, tinha-se deitado tarde, muito tarde e não tinha dormido bem. Mas, logo abandonou a ideia de ficar mais tempo na cama e levantou-se, pensando nas muitas coisas que fazer na empresa.


Lavou a cara e fez a barba a corer, automaticamente. Não prestou atenção ao roto cansado nem às olheiras escuras, resultado de noites mal dormidas.

Engoliu um café e saiu de casa, resmungando baixo um “bom dia”, sem muita convicção. Desprezou a esposa que se oferecia para um beijo de despedida. Não percebia porque se queixava ela tanto da sua ausência e sempre lhe pedia mais tempo para estarem juntos.

Agora, que estava a conseguir manter o elevado padrão de vida da família? Não bastava isso?

Entrou no carro e pisou o acelerador. Pegou no telemóvel e ligou para a filha. Sorriu quando soube que o netinho tinha dado os primeiros passos. Ficou séro quando a filha lhe lembrou de que há tempos não aparecia para ver o neto e o convidou para almoçar.

Foi uma grande luta. Sabia que gostaria muito de estar com o neto. Mas não podia, nesse dia, sair da empresa. Talvez no próximo sábado..?

Chegou à empresa e mal cumprimentou as pessoas. A agenda estava sobrecarregada e era muito importante começar imediatamente a atender os compromissos, pois estava plenamente convicto de que as pessoas de valor não desperdiçam tempo com conversa fiada.





À hora do almoço pediu à secretária para lhe trazer uma sande e um sumo sem açucar. O colesterol estava elevado, precisava de fazer análises, mas isso ficaria para o próximo mês.


Começou a comer enquanto lia uns papéis para a reunião da tarde. Nem se apercebeu do que comia.

Enquanto relacionava os telefonemas a fazer, sentiu uma tontura e a vista embaciou-se. Lembrou-se do médico quando o advertiu, dias antes, quando teve os mesmos sintomas, de que estava na hora de fazer exames. Mas logo concluiu que era um mal-estar passageiro, que seria resolvido com um café forte sem açucar.

Terminado o “almoço”, escovou os dentes e voltou ao trabalho. “A vida continua!”, pensou. Mais papéis para ler, mais decisões a tomar, mais compromissos…

Já meio atrasado, saiu para uma reunião. Esperou pelo elevador, entrou no carro e deu à ignição. Quando ia engatar a velocidade, sentiu de novo o mal-estar, agora uma forte dor no peito.

O ar começava a faltar… a dor ia aumentando… o carro desapareceu… os outros carros também… os pilares, as paredes, a porta, a claridade da rua, as luzes do tecto, tudo se foi sumindo diante dos olhos, ao mesmo tempo que surgiam cenas dum filme que conhecia bem.

A esposa, o netinho, a filha e, uma após outra, todas as pesoas de que mais gostava.

Porque não tinha ido almoçar com a filha e o neto? Que tinha dito a esposa á porta de casa quando saía de manhã?

A dor no peito persistia, mas agora outra dor o perturbava: a do arrependimento.

Não conseguia distinguir qual era a mais forte: a dor da artéria entupida ou a da sua alma que se rasgava…

Ouviu o barulho de algo que se partia no coração e, dos olhos escorreram lágrimas silenciosas…

Queria viver, queria mais uma hipótese, queria voltar a casa e beijar a esposa, abraçar a filha, brincar com o neto…






Quantas pessoas vivem hoje o seu último dia na Terra e não o sabem!


Quantas saem do corpo físico diariamente e deixam tantas coisas por fazer!

Tudo será feito por outras pessoas, mas as questões afectivas, as coisas do coração, apenas cada um pode deixar em dia. Aquela visita a um amigo, o abraço de ternura a um familiar querido, um beijo carinhoso á esposa, uma palavra atenciosa a alguém que dela necessita…

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