Neste Portugal onde se fala de barões, assinalados ou não, há senhores e senhoras que mais parecem menestreis duma corte imaginária. No entanto exaltam a República…
Falar de Alegre, Cavaco, de Sócrates ou de Rangel ou Portas, de Jerónimo ou de Louçã da mesma forma que se fala de Al Capone ou Madoff, não deve ser feito sem ter em conta as devidas diferenças entre eles. E nós.
Hoje, mais que com nome, é com apodos que alguns deveriam passar à história.
Os nomes acima citados nada têm a ver, excepto os estrangeiros, com os que deviam passar á história como os defraudadores, os batoteiros que deram cabo dos pequenos dinheiros de tanta gente. Nem sequer possuem uma gruta secreta na encosta duma montanha nem uma palavra mágica para que uma enorme rocha se movesse quando dita.
Diz-se que Portugal é cada vez mais corrupto…
Esse homem, que abusou do apelido familiar para parasitar uma instituição, aquele que “desviou” aqueles biliões e de nada se recorda, deve pagar vendo como o nome de seus avós, de seus pais e seu, é usado pelas pessoas como sinónimo de “ladrão”.
No dia em que meus ouvidos ouçam um adolescente, ou adulto, gritar “Ó Costa”, por exemplo, ao árbitro que roubou um penalti num desafio de futebol, ficará demonstrado que a cidadania tem memória.
O mais terrível deste caso não é a quantificação do roubado, perdão, “desviado”, senão a perda de confiança gerada num país que acreditava – na sua ilusão patriótica – que os excedentes da chamada burguesia portuguesa iam engordar a causa duma cultura e duma maneira de actuar que a todos impregnava duma absurda e injustificada autoridade moral. Em Portugal, a única autoridade moral devêmo-la às nossas derrotas e à resistência dos portugueses de fé.
A burguesia nacional que nos tocou em sorte acabou e contou com alguns heróicos epígonos que – justo é reconhecê-lo – esvaziaram os bolsos, a fundo perdido, enquanto o salazarismo se convertia na segunda bandeira da fuga dos desertores. Mas, tudo se acaba.
No Portugal do dinheiro já não há causa nobre, senão delito espúreo e, sob uma camuflagem das famílias de toda a vida, o que havia de ser uma sociedade perfeita, não é outra coisa que a caverna de Ali Babá.
O caso do “Ó Costa”, por exemplo, não é apenas um delito penal, senão que, antes de tudo, um delito moral. O “Costa” provovou uma fractura de difícil soldadura entre as classes dirigentes do dinheiro e as classes subalternas da ilusão. O nacionalismo em todas as suas versões devia aparcar a festa maior dos referendos e gravitar na necessária órbita da regeneração dumas práticas elitistas que, no fundo, só sabem varrer para casa, revestidos de “opas" silenciosas.Chegam a limpar o prato da indignação e dizem que ninguém fiscalisou o tal de “Costa”, por exemplo. É verdade. Mas admitámo-lo duma vez: que poder real têm essas administrações dirigidas desde o interior dumas eleições face ao portuguesismo de pedra picada dalgumas dessas famílias? Realmente há quem possa crer que os representantes dum povo crédulo e desconcertado vão conseguir introduzir-se faclmente em livros de contabilidade inexistentes e ou opacos?
Esses políticos que são, ao fim e ao cabo, meros passageiros do ascensor social português, como poderão passar por baixo dos reposteiros dos palácios dos egrégios apelidos, ou como cruzarão o umbral dos átrios do dinheiro? O portuguesismo levou-nos á ilusão de acreditar que todos eramos mais ou menos iguais e que o lacaio e o amo subscreviam um mesmo projecto. O pior é que todos os “Costa” nos pregaram uma amarga lição de confiança e que os membros da plutocracia lusitana se sentam a cear uns com os outros e haverá bons motivos para se olharem bem nos olhos e intuir que delitos esconde cada um deles. Que ossepulcros dos branqueados se façam agora surpreendidos. Que não disimulem a sua fogueira das vaidades, acesa com lenha da árvore caída. De tanto insultar o ministério esquecem o profundo mistério da ambição sem pátria.

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