As ciências históricas projectam-nos, compilam e interpretam o passado.
São tãoimprescindíveis como insuficientes, porque o futuro do passado já é o presente, que só é o passado do futuro.
Unicamente o projecto propicia o futuro. É mais que um sonho; é o presente de amanhã. O sonho obvia a realidade; o projecto transforma-a para diante.
Creio que as ciências económicas deveriam ser menos historicistas e mais projectistas.
Assim explicam a crise actual, mas de momento só nos apresentaram um touro da raça cornilarga e nenhum projecto digno de tal nome para a superar.
Propõem explicações e paliativos, mas não projectam novos cenários. Pelo contrário, pedem-nos que confiemos nas grandes cabeças que temos (???) e nos mesmos instrumentos financeiros, nas mesmas instituições e nas mesmas pessoas que nos conduziram ao desastre, algumas das quais certamente são também as que no-lo explicam.
Fraco e frouxo projecto este. Temerário mesmo.
Assim pensava há cerca de duas semanas quando ouvia, através da BBC/TVE Bengt Holmstrom, na sua palestra inaugural da Universidade Politécnica da Catalunha.
Holmstrom, que é professor do departement of Economics do MIT (Massachussets Institut of Tecnology), expunha a frívola irresponsabilidade financeira dos bancos à sombra das hipotecas subprime e dos pacotes de investimento opacos, que actuaram no sumideiro deletéreo dos recursos reais gerados pela economia produtiva, que é a economia propriamente dita, se bem que se veja. Até aqui, a história. Honesta e rigorosa, mas história. Ou seja, passado.
Mas Holmstrom é também membro do Conselho de Administração da Nokia Corporation, na sua Finlândia natal. A Nokia tem passado historiais.
Fundada em 1865, fabricou cabos até que entrou na telefonia em 1997. Em 1992, em plena recessão escandinava, por uma crise financeira paracida com a que hoje afecta todos os países industrializados, apressou-se a fechar o cerco. Mas, apostou na inovação, concertou espaços universitários, empresariais e governamentais, uma ideia emergente e, acabou por liderar a revolução dos telemóveis. Por isso, além do passado, a Nokia teve presente e, sobretudo, futuro.
Quando sobram o tempo e o dinheiro, não se inventa nada, recordava Holmstrom.
Reconforta ouvi-lo dum economista universitário. Claro que também falava o executivo da Nokia.
Os administradores do antigo regime financeiro e académico pedem-nos dinheiro e tempo para sair da crise e inovar. E sobretudo o sacrifício de viver no desemprego anos a fio.
E é justamente o que não temos ou podemos dar, porque eles próprios nos tiraram, impondo-nos a iteração do seu anacrónico modelo económico e cognitivo.
Já demonstraram que sabem arruinar-nos, não sendo preciso que se esforcem a preparar-nos outra calamidade.
Alguns pensam que o futuro é a transformação sustentável do presente. O fazer como a Nokia.
Não se trata de mudar de combustível, mas da motorização. A crise é uma grande oportunidade, porque só há uma saída: a da forca.
Crescimento quantitativo devolver-nos-ia aos pesadelos do passado. Há que fazer mais coisas duradouras para todos e com menos recursos, optar pela economia circular.
Já sei que a ortodoxia economicista recomenda o contrário. Mas sei também, e está à vista, onde nos leva. Concrteamente, onde não queremos ir.

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