sábado, 31 de outubro de 2009

A memória indelével



Imaginemo-nos possuidores duma memória tão apurada que, já em idade avançada conseguimos ainda lembrar-nos claramente do rosto da nossa mãe inclinar-se sobre o nosso berço.

Ou imaginemos que as palavras e números evocam no nosso espírito imagens concretas específicas. Todos ou muitos dirão que sim, que têm uma vaga ideia ou que se recordam perfeitamente disso tudo.


A nossa capacidade de memória pode ser praticamente ilimitada: não só conseguimos memorizar quase tudo, como cada nova recordação é indelével. O que significa que 5 ou 15 anos depois de termos memorizado um discurso, uma promessa, uma conversa em público ou em privado, podemos repeti-la sem erros e descrever em pormenor a sala onde essa conversa teve lugar.




A recordação duma impressão armazenada resulta num estado de cinestesia em que a memória mistura as imagens, os sons, o tacto, o sabor e o cheiro.


Actualmente, alguns pensam que o sistema límbico, que processa as sensações, é tão activo que suplanta a capacidade discriminativa do cérebro em relação às fontes dos sentidos.

Para nós, isto tem um significado muito importante, ao contrário do que possa significar para um político, que se recusa admitir ter dito isto ou aquilo, neste ou naquele dia, dando a entender que quem está errado, ou obnubilado somos nós e não ele.

Enquanto alguns de nós educam a memória para poderem, mais tarde, recordar-se de tudo o que disseram e do local onde o disseram, o político, geralmente, refuta ter dito o que realmente disse ou ter feito realmente o que fez, negando-o claramente e acusando-nos de estarmos a deturpar o que “efectivamente disseram”.




O político não possui uma memória polissensorial, que é a chave para a capacidade de memorizar conversas e factos passados.


Por vezes, causam “inveja” a quem os ouve negar alegremente o que realmente disseram e fizeram, porque considero ser necessária muita “coragem” para o fazer, ao mesmo tempo que fazem dos outros, de nós portanto, uns desmiolados inventores de frases, gestos que nunca pronunciaram e muito menos fizeram, bastando: “Eu não disse isso! Eu não fiz isso!”… o poder a quem o detém.

E nós ficamos encavacados, porque numa mente normal, as impressões começam quase imediatamente a apagar-se, deixando lugar para novas impressões. É verdade, mas cada impressão recebida dura horas e acaba por ser assimilada, levando á acumulação de memórias sobre memórias. E, como elos mais fracos duma sociedade em que sempre sai vencedora a “lei” do mais forte ou poderoso, acabamos por nos calar, porque todas as estratégias para esquecer determinadas afirmações, gestos ou acções, se revelam ineficazes. E vemo-nos obrigados a suprimir grupos inteiros de memórias, ignorando-as sistematicamente. Depois, experimentamos escrever as coisas que queremos esquecer em folhas de papel que de seguida queimamos ou rasgamos, embora as recordações não se esfumem ou desapareçam. E só a muito custo pessoal conseguimos tentar afastar algumas.



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